A narrativa acompanha quatro gerações da família Trueba-Del Valle, num país latino-americano não nomeado (mas que claramente ecoa o Chile). A história começa com o impetuoso Esteban Trueba, um homem de vontade férrea e mau humor crônico, e sua esposa, Clara, uma mulher silenciosa e misteriosa que prevê o futuro, move objetos com a mente e escreve a história da família em cadernos de anotações.
Lançado em 1982, este romance de estreia da autora chilena é frequentemente descrito como realismo mágico — aquele primo distante e fascinante do realismo comum, onde o impossível acontece e ninguém acha estranho. Mas, acima de tudo, é a história da família Trueba.
O romance cobre quase todo o século XX chileno, incluindo: isabel allende a casa dos espiritos
O está presente em cada página: objetos levitam, personagens preveem o futuro, fantasmas dão conselhos. Mas Allende usa esses elementos não como mero exotismo, mas como uma linguagem para descrever a realidade latino-americana, onde o absurdo da violência política se mistura com o sagrado cotidiano.
Para leitores brasileiros e portugueses, a obra também dialoga com nossas próprias ditaduras (1964-1985 no Brasil; 1926-1974 em Portugal). A tortura de Alba ecoa nos porões do DOI-CODI e da PIDE. Mas, acima de tudo, é a história da família Trueba
A prosa de Allende é fluida, sensorial e profundamente emocional. Ela não tem medo do melodrama – e é precisamente essa ousadia que toca milhões de leitores.
Esteban Trueba é um homem detestável em tantos aspectos — autoritário, violento, orgulhoso — mas Allende tem o dom de mostrar sua vulnerabilidade e seu amor torto. Clara é a alma do livro: etérea, poderosa e silenciosamente rebelde. E Blanca, Alba e as outras mulheres da família são o verdadeiro coração pulsante da narrativa. Para leitores brasileiros e portugueses, a obra também
Allende transforma a história privada da família Trueba numa alegoria da história pública do Chile. A "casa" é simultaneamente um lar e a nação; os "espíritos" são a memória dos mortos e os fantasmas do passado que se recusam a desaparecer.
Ao fechar a última página, o leitor compreende que a verdadeira "casa dos espíritos" é a própria linguagem: é ela que abriga os mortos, que dá voz aos silenciados e que garante que a história não seja apagada.
Publicado em 1982, o livro não é apenas uma narrativa sobre quatro gerações de uma família chilena; é um monumento à memória, uma denúncia política camuflada pelo manto do fantástico e uma das obras mais emblemáticas do Realismo Mágico, movimento literário que colocou a América Latina no mapa mundial das letras.